Um tributo ao Patriarca Severino Lima

Você já se imaginou vivendo numa casa de taipa, com piso de barro, sem água encanada, sem energia elétrica, o que implica não ter nenhum eletrodoméstico, e com um total de 11 pessoas? Além disso, um pai e uma mãe que não sabem ler, sendo ele servente de pedreiro e ela cuidadora do lar… porém, um homem simples, humilde, extremamente trabalhador, rigoroso na criação dos filhos e temente a Deus; ela, igualmente simples, humilde, amorosa, bondosa e cheia de fé em Deus. Essa união só poderia resultar numa linda história de coragem e fé que certamente nos edificam sobre como amar e servir ao Senhor independente das circunstâncias. Uma história de sofrimento e alegria trilhada pela obediência e lealdade ao Senhor.
No início da da década de oitenta, o irmão Severino Lima trabalhava numa construtora como servente de pedreiro e residia com sua esposa “Paizinha” (Maria da Paz), numa pequena casa de taipa em Bayeux, de apenas 72 metros quadrados. Seu sonho, era um dia construir uma “casa de tijolos”. Nos finais de semana ele trabalhava vendendo doce de côco, mais conhecido no Nordeste como quebra-queixo, carregando um tabuleiro em sua cabeça e caminhando longas distâncias. Certo dia, estava retornando de seu trabalho, como servente, numa estrada de terra para pegar um ônibus até sua casa, quando passava um caminhão carregado de tijolos furados e curiosamente despencou da carga um único tijolo… olhou para aquele tijolo, pegou-o em suas mãos, colocou-o dentro de sua sacola e disse: – Com este tijolo iniciarei a construção da casa dos meus sonhos. Chegando em casa se dirijiu à “Paizinha” e disse: – Paizinha, este tijolo é o início do alicerce de nossa casa! Ela riu e disse-lhe que estava ficando doido. Na segunda feira foi no depósito de materiais de construção e comprou mais dois tijolos, que completou três e os colocou no cantilho da parede junto com o primeiro. No outro final de semana comprou mais cinco tijolos, no outro final de semana comprou mais 10 tijolos e assim a cada semana continuou economizando e comprando dez, depois passou a comprar vinte, em seguida passou a comprar 50 e finalmente estava comprando 100 tijolos por semana. Recebeu o PIS e comprou um caminhão de pedra. Depois, comprou um caminhão de areia, mais meio caminhão de pedras e conseguiu completar cinco mil tijolos. Todo esse material ficou devidamente distribuído no grande quintal que havia na sua casa. Nesse período por volta de 1980, foi classificado como pedreiro; seu salário melhorou consideravelmente e começou a construir sua nova casa por baixo da velha casa. Começou fazendo a sapata, que tinha 06 metros por 12 metros; esse difícil processo era feito apenas nos finais de semana com todos morando dentro da casa. Num sábado derrubava uma parede e no mesmo dia levantava a nova… no domingo fazia uma outra parte da sapata e assim conseguiu subir todas as paredes sozinho. Conseguiu comprar toda a madeira de uma única vez; fez o madeiramento e o cobriu reaproveitando as telhas de sua velha casa de taipa. Foram oito meses apenas para cobrir a casa e finalmente após 05 anos ao concluir a construção, sua família havia sido aumentada em mais dois filhos totalizando agora nove filhos. Nesse período ficou desempregado e voltou a vender doce… se levantava às 5h da madrugada para fazê-lo e em seguida passar todo o dia caminhando com o tabuleiro em sua cabeça, só retonando no final do dia. A cada quinze dias, comprava uma saca de açúcar; dessa maneira, conseguiu juntar dinheiro para terminar o reboco e todo o acabamento da casa.
Percebeu que sua casa de 72 metros quadrados, estava pequena para onze pessoas e decidiu comprar um terreno em Tibiri; juntou dinheiro e comprou um terreno por Cr$ 600,00 (seiscentos cruzeiros). No mês seguinte, comprou dois caminhões de pedra, dois caminhões de areia e decidiu vender sua casa em Bayeux que havia construído com tanto sacrifício, para assim construir sua nova casa. Sempre com fé em Deus fez uma oração, pedindo a Ele que conseguisse um comprador. Em 15 dias chegou um senhor em sua casa e lhe perguntou o preço da casa. Ele respondeu que seu preço era Cr$ 25.000,00 (vinte e cinco mil cruzeiros). O homem olhou toda a casa, se agradou e lhe pagou a vista sem barganhar em espécie o valor pedido, e lhe deu trinta dias para sair.
Seu sogro morava em Tibiri; ele conversou com ele e pediu-lhe para sua família de 11 pessoas ficar morando com eles enquanto construísse sua nova moradia. Seu sogro disse que sua casa era grande e que eles poderiam sim, morar com eles… entregou a casa no prazo, alugou um caminhão e colocou sua mudança dentro da casa do sogro. Iniciou a construção da casa e seu sogro o ajudou como servente de pedreiro. Desta feita a casa tinha 12 metros por 08 metros, totalizando 96 metros quadrados. Foi um trabalho muito intenso e em apenas 60 dias concluíram sua nova construção. Evidente que a casa estava sem piso de cimento, apenas no barro e que estava sem reboco, no tijolo aparente e que tinha apenas duas portas, a da frente e à dos fundos. Segundo suas palavras: – “Foi uma alegria imensa entrar e morar dentro de minha casa com meus nove filhos”. Continuou vendendo doce e conseguiu fazer o reboco e o piso da casa; moraram por mais 05 anos sem luz elétrica, na base do candeeiro de gás e sem água encanada. Finalmente chegou luz elétrica, após três ruas de sua casa; conversou com a companhia e conseguiu que eles instalassem 02 postes até chegar em sua residência e assim chegou energia elétrica.
Agora eles precisavam de água potável… o que será que o guerreiro Severino iria aprontar dessa vez? Decidiu cavar um poço na procura do precioso líquido! Iniciou as escavações com um diâmetro inicial de dois metros. Ele descia numa corda com um pau atravessado que o guiava até embaixo à medida que se aprofundava… cavou o poço durante três meses até chegar numa profundidade de trinta metros, com uma redução do diâmetro para um metro. Nesse ponto começou a ver uma terra branca, tipo areia molhada; ele parou para escutar um pouco e ouviu o barulho como se fosse de um rio… deu uma pancada com o enxadeco na parede lateral do poço e imediatamente estourou água com muita pressão; ele experimentou e afirmou ser doce como mel! Era pura água mineral! A água começou a subir rapidamente e em 30 minutos ele teve que ser elevado para a superfície para não morrer afogado. Naquele mesmo dia a água subiu três metros e hoje ela está a quinze metros e abastece água para sua casa e para mais duas casas de seus filhos.
Aproximadamente 02 anos depois, George, um de seus filhos que fazia o seminário para ser padre juntamente com o o amigo Wellington, conheceu os missionários da igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. Logo, eles se batizaram e também o irmão Severino e a irmã Paizinha; em seguida mais 03 filhos e finalmente em poucos dias todos foram batizados, ainda no primeiro semestre de 1992. Um ano depois, após economizar dinheiro, eles viajaram para São Paulo numa caravana e foram selados como família no Templo de São Paulo para toda a eternidade. Com o dinheiro escasso só conseguiram selar o primeiro filho Francisco. No segundo ano conseguiram levar e selar a Rosa, no terceiro ano, conseguiram selar Maria, Jeane e George que estava servindo como missionário de tempo integral em São Paulo. Nesse período, a liderança local o ajudou com o fundo de jejum e juntos adquiriram uma bicicleta com motor para que ele pudesse deixar de vender doce com o tabuleiro na cabeça e passasse a vendê-lo na bicicleta. Isso foi uma grande benção em sua vida. Em outra caravana levaram o Severino filho e assim conseguiram selar 06 filhos; Três deles, George, Rosa e Francisco, serviram uma missão de tempo integral. Hoje o irmão Severino tem 70 anos, está aposentado e o casal tem 18 netos e 03 bisnetos, sendo que 02 netos estão servindo atualmente como missionários.
Quando ele se batizou em 1993, não sabia ler uma palavra… segundo ele, “era analfabeto cego” e recebeu um desafio dos missionários para mesmo sem saber, começar a ler o livro de Mórmon, sob a premessa de que aprenderia a ler. Com fé, assim o fez, e todos os dias, bem cedo, ele abria o livro e tentava lê-lo… aos poucos sua mente foi se abrindo e começou a entender… um milagre aconteceu e ele simplesmente aprendeu de maneira autodidata a ler as palavras o que o deixou muito feliz, pois agora poderia servir melhor ao Senhor. Durante esses anos, teve a oportunidade de servir como presidente do quórum de Élderes, servir no sumo conselho da estaca e também como Bispo por 07 anos. Serviu ainda como conselheiro na presidência da estaca por 02 anos e por 07 anos como patriarca, fornecendo 200 bençãos patriarcais nesse período, uma média de 2,3 bençãos por mês.
Essa é sem dúvidas uma história de amor, obediência, serviço, coragem, fé, ousadia e persistência. Um exemplo de família patriarcal, onde claramente podemos perceber que, quando colocamos foco naquilo que queremos, podemos alcançar qualquer coisa. Uma história de fé, uma história de milagres.