Um tributo ao meu sogro, Sr. Pedro

No último dia 09 de agosto, dia dos pais, tive a oportunidade de fazer literalmente uma entrevista com seu Pedro, pai de Maristela para poder conhecer mais detalhadamente a história de sua vida. Esse encontro ocorreu numa bela tarde, após almoçarmos juntos em família uma saborosa galinha com feijão verde. Conheci Sr. Pedro no dia 06 de março de 1982, sábado, dia em que conversei com sua filha para namorarmos; de lá para cá passaram-se exatos 38 anos e sempre tivemos um ótimo relacionamento; sempre muito atencioso, extremamente trabalhador e muito responsável com sua família; é um homem que vive apenas de casa para o trabalho; segundo seus filhos sempre foi muito enérgico na criação de cada um deles, jamais permitindo qualquer desavença entre irmãos, um total de oito, sendo 05 mulheres e 03 homens
Nasceu em 1938, sendo um dos mais novos de um total de 12 filhos, 06 homens e 06 mulheres. O local preciso de seu nascimento foi no sítio conhecido como “Serra do Joaquim Vieira” no município de São José da Mata, Paraíba; a área total do sítio era de 80 quadras com temperatura média de 27º durante todo o ano. Havia muitas árvores e plantas dentre elas: rubayat, batinga, maracujá mochila e umbuzeiro. Seus pais apreciavam criar animais e o sítio parecia mais um zoológico com gado, guiné, pato, bode, porco e perú, sendo todos criados soltos na capoeira. No final da tarde as galinhas voltavam para os puleiros do galinheiro, o gado retornava para o curral e os bodes e porcos para o chiqueiro. Eram aproximadamente 10 vacas leiteiras e um rebanho total de 20, entre vacas, bois e bezerros. Estudou apenas até o primeiro ano escolar, e fugia constantemente da sala de aula para ir tomar banho de “barreiro”. Apesar de não ter estudado, sempre foi muito inteligente e aprendia rápido por observação; demonstrava muita habilidade na área de construção civil, dominando a técnica de sentar tijolos, cerâmica, pintura, serralheria, marcenaria, hidráulica e elétrica.
As duas festas mais importantes da região em sua infância e juventude eram o São João e as festas de fim de ano, natal e ano novo. No são João, acendiam grandes fogueiras, pois a madeira era abundante na mata; soltavam muitos fogos de artifício tais como rojões, foguetões e balões. A comida era farta com pamonhas, canjica, milho assado e cozido; era tradição de seus pais realizarem quase todos os domingos um baile de forró para parentes, amigos e vizinhos. Havia uma banda comandada por Gerôncio que tocava o fole de 08 baixos, acompanhado por um triângulo, reco-reco, zabumba e tamborim. A festa era famosa e sempre cheia, sendo a atração do final de semana, varando a noite até a madrugada. Nas festas de fim de ano, especificamente na passagem de ano novo, havia muita comida e tradicionalmente seu pai matava um boi para toda a família que se reunia para comemorar comendo muita carne assada, ao que hoje chamamos de churrasco, muito feijão e arroz vermelho, também chamado arroz da terra. Amanheciam o dia dançando forró ao que chamavam “pegar o sol com a mão”.
Com 14 anos iniciou as paqueras e até seus 20 anos foi um dos maiores namoradores da região, chegando a namorar com 12 a 15 garotas ao mesmo tempo. Uma das diversões mais apreciadas, era ir com amigos e amigas aos domingos, tomar banho no açude da serra, mesmo local onde durante a semana levavam o gado para beber água. Tem boas recordações do cachorro “Lord” que segundo ele, só faltava falar; era um cão caçador muito bem treinado; além do cachorro, usavam espingardas para matar rolinhas, juritis, lambús, tejos, camaleões e pebas, muito comuns e abundantes na época.
Aproximadamente em 1952, obteve seu primeiro emprego, como tratorista na cidade de Nova Floresta no estado do Rio Grande do Norte, onde trabalhou por 05 anos, retirando sisal do campo e transportando para a usina que ficava dentro da propriedade. Em 1957, largou a carreira de tratorista e decidiu viajar para longe, indo trabalhar no Rio de Janeiro. Curiosamente nesta viagem, conheceu Jackson do Pandeiro que também viajava no mesmo ônibus para aventurar-se no mundo musical no sul do país. Seu Pedro viajou acompanhado de seu pai, Francisco, e nas poltronas à sua frente sentavam-se Jackson e sua esposa. Uma cena inusitada aconteceu… Já no ônibus em plena viagem Jackson do pandeiro demonstrou seu talento e cantava para todos os passageiros com seu pandeiro e seu Pedro passava o chapéu, ou seja, recolhia o as doações dadas pelos passageiros. Assim sendo nessa viagem ele tornou-se o assistente de Jackson do Pandeiro. Ao chegar no Rio, cada um tomou seu rumo e jamais se reencontraram.
Seu primeiro emprego no Rio de Janeiro foi como servente de pedreiro na reforma da “casa do retalho” na rua Carvalho Alvim, perto da Candelária, onde permaneceu por aproximadamente um ano. Em 1958 retornou à Paraíba e um colega o informou sobre algumas vagas na Fracalanza, forte empresa de fabricação de cordas de sisal. Iniciou sua carreira nesta empresa como “fiador de cordas” e permaneceu nesta função por 06 anos; em seguida foi promovido para “lubrificador de máquinas” e nesta função ficou por 10 anos. Aproximadamente em 1974, foi promovido a “Encarregado de produção”, cargo que permaneceu até aposentar-se em 1994. Um fato curioso é que para ocupar essa posição, como não sabia ler, ele teve que aprender a leitura básica e especialmente a assinar seu nome e coube aos seus filhos essa tarefa árdua e prazerosa de ensiná-lo, que o qualificou e o conduziu a assumir essa função.
Conheceu dona Zefinha, sua esposa, em 1959 aos 21 anos de idade, que o fez abandonar a carreira de galanteador das meninas; em menos de um ano completaram o ciclo de namoro e noivado e se casaram em Campina Grande quando ele completou 22 anos em 1960; a festa de casamento foi apenas para a família, regada com garrafas de “Vinho Tinto Silva” e muito peru. Moraram inicialmente por um ano na casa de seus pais na rua 24 de maio, bairro do tambor, enquanto ele construía com suas próprias mãos sua primeira casa na rua general Canrobert, onde vieram a morar por 06 anos. No início permaneceram sem água e luz por 03 meses; conseguiu comprar todos os móveis, sofá, guarda roupa, petisqueiro (guarda louça), fogão de barro, onde usavam como combustível lenha ou carvão; usavam também o fogão jacaré, alimentado por um bojão de querosene. Não satisfeito com esse bairro e desejando um melhor local para criar seus filhos, já tendo mais experiência na área de construção, desenhou o projeto de uma nova casa e começou a construí-la na rua Sergipe, nº.1148, bairro da Liberdade; conseguiu com muito sacrifício concluir a construção e mudaram-se para a nova casa, onde residem até o presente.
Durante sua jornada, certamente passaram por muitas dificuldades financeiras; afinal, criar 08 filhos não foi fácil, entretanto conseguiram como casal sobrepujar os desafios e sempre incentivaram seus filhos a estudarem e todos se matricularam em escolas públicas. No que tange ao relacionamento matrimonial, também tiveram seus desapontamentos e suas crises que foram superadas ao longo dos anos e hoje são um casal maduro com 60 anos de casamento.
Desde então aventura-se a fazer suas próprias criações e adaptações de máquinas para facilitar a execução de determinadas tarefas. Já fabricou um moinho de milho para fazer pamonha e canjica; fez um carrinho para transportar o gás, um porta ferro elétrico, uma árvore de natal elétrica e uma série de outras pequenas e até engraçadas invenções que recebeu o título ou apelido de “Professor Pedim”, uma alusão ao “Professor Pardal”. Assim que se aposentou não ficou parado e como autônomo, durante muitos anos trabalhou, realizando serviços de obras de construção em casas de amigos, parentes e também desconhecidos; uma destas obras foi a construção da casa de sua filha Eliane no pavimento superior de sua própria casa.
Os pratos preferidos dele são: galinha, feijão verde, coalhada, carne guisada e comida de milho como pamonha, canjica e manguzá. No natal não pode faltar o peru. Os cantores prediletos são: Jessé, Evaldo Braga e Nelson Gonçalves.
Quando seus filhos ainda eram criança ele costumava fazer uns desenhos numa folha de papel em branco, sempre o perfil de “um homem com um narigão” e todos apreciavam e brincavam com aqueles dessenhos estranhos. Na época que não havia restrições contra a criação de pássaros, ele apreciava cria-los, tendo como preferidos o galo de Campina, concriz, craúna, xexéu e canário. Sempre gostou de criar gatos, e mais recentemente cachorros. É fascinado por bicicleta e moto e possuiu como carro um fusca e uma variante.
Seus filhos alegam que ele jamais bateu em qualquer deles e no máximo sua maior repreensão era chamá-los de “Seu carêta”. Durante um período de sua juventude morou com seu Tio Joca Capiba e sua tia Terezinha; esse tio era parente do professor Capiba e do sanfoneiro Capiba. Ela era muito fina e delicada, extremamente educada e com ela aprendeu etiquetas sociais sobre comportamento social, uso de talheres e outras que o fez aplicá-las em sua casa na criação dos filhos. Não admitia sentar-se na mesa sem camisa; chupar osso na mesa nem pensar… qualquer um que fizesse barulho na boca, como raspar o garfo ou colher nos dentes, era imediatamente repreendido; todos tinham que comer sempre de boca fechada e jamais gritar um com o outro. Ao sentarem-se na mesa para se alimentar, todos esperavam que seu Pedro, primeiro pegasse seu pedaço preferido da coxa da galinha.
Ao perguntar sobre sua maior tristeza e sua maior alegria em vida até o presente, foi rápido e categórico ao responder que sua maior alegria foi seu casamento com Zefinha e o nascimento de sua primeira filha Socorro e que sua maior tristeza foi a morte de de seu pai com 89 anos e de sua querida mãe com 99 anos.
Atualmente permanece em casa ao lado de sua querida esposa, Zefinha, cuidando de sua saúde, especialmente de um eczema de pele nas pernas, sempre aguardando ansiosamente a visita de seus filhos e netos. Está sempre ativo ajudando em casa nas atividades domésticas, realizando consertos e fazendo compras no mercado. Aprecia deitar-se em sua rede, enquanto cochila e medita sobre sua vida de criança, adolescente, profissional, marido, pai e avô.