Um tributo ao meu Pai!

Falar sobre o meu pai é sempre muito emocionante para mim… Convivi com ele até os 19 anos quando fui servir uma missão de tempo integral contra sua vontade, infelizmente por não ter conhecimento do evangelho. Meu pai era razoavelmente alto com 1,80m, olhos e cabelos castanhos, magro, talvez pelo fato de sofrer muito com uma úlcera duodenal que tinha durante anos e nunca teve coragem de operar, pois as pessoas na época diziam que, se ele o fizesse, era morte na certa. Eu o ouvia comentando sobre pessoas que fizeram a cirurgia e faleceram e assim ele preferia sofrer com dores fortes a ponto de gemer caído no chão a ter que fazer tal procedimento. Eram cenas tristes e pouco podíamos fazer… lembro que minha mãe fazia de tudo para ele melhorar… evitava que ele comesse frutas ácidas, dava-lhe feijão passado no liquidificador e sempre o alimentava com comida pastosa em época de crise e dava-lhe muito leite de magnésia. Era uma pessoa que gostava de conversar com amigos; gostava de futebol e torcia pelo treze futebol clube, embora nunca tenha sido um torcedor fanático. Assistimos alguns jogos juntos. Sempre nos dava bons ensinamentos, entre eles:”A melhor herança que um pai pode deixar para um filho é a educação”. Também costumava dizer que “Casa onde tem homem, mulher não faz tarefa difícil”. Ou seja, sempre quem jogava lixo fora, comprava o pão ou ia na mercearia, eram os homens da casa, eu ou Joéliton meu irmão. Também não permitia que as nossas irmãs, Joelma, Joedna e Joelba usasem bicicleta… Ensinava também que havia 03 coisas que não se emprestava: “dinheiro, arma e mulher”. Sempre foi 100% honesto em tudo o que fazia e sua palavra era uma questão de honra. Detestava brigar ou discutir… jamais o vi brigando com minha mãe, apesar de saber que tiveram suas diferenças… essas diferenças eram acertadas de forma reservada, de maneira que nunca vimos. Era inimigo de cigarro e bebida alcóolica e sempre nos ensinava a ficar longe desses vícios; certa vez ele conversou comigo e disse-me que fumou um tempo em sua juventude, entretanto certa vez ele estava esperando o ônibus, sentado numa pedra na beira da estrada no sertão fumando um cigarro, quando de repente, perguntou-se: o que estou fazendo com esse cigarro em minha mão? ele não pode me dominar, sou mais forte que ele… apagou o cigarro, jogou fora e daquele momento em diante jamais colocou outro cigarro na boca. Assim ele nos ensinava, que nós é quem controlamos nossa vida e nossas decisões e não podemos permitir que nada nos controle. Apreciava jogar baralho com seus amigos e parentes e lembro-me muito bem das muitas vezes que toda nossa família ia na casa de meu avô jogar cartas com meus tios e amigos; enquanto isso, brincávamos com nossos primos. Outra atividade que ele gostava muito, era sair com meu avô e meu tio Zeca, além de outros amigos para caçar e pescar; ele tinha toda a idumentária própria para um caçador além de cachorro para fazer viagens e sempre traziam muita caça ou pesca. Eu costumava ajudar meu pai e minha mãe a tirar as penas dos lambús, rolinhas, codornizes e outros pássaros; também o ajudava por horas preparando a munição que usaria nas armas, chamadas espingardas para atirar nos pássaros e animais.
Ele tinha apenas o quarto ano primário, entretanto tinha um grande conhecimento… sabia muito bem matemática e se expressava muito bem! sempre trabalhou desde novo e desde sua juventude usava terno de linho claro com gravata em muitas ocasiões. Tinha uma linda caligrafia e reclamava muito de nossas letras… depois de adulto voltou a estudar e tinha um desempenho espetacular. Eu o ajudei em algumas tarefas e possuo até hoje um caderno de estudo preparado por ele. Ele adorava brincar com os filhos e gostava que nós penteássemos seu cabelo e lixássemos um calo seco que tinha nos pés e sempre eram atividades bem divertidas… As funções que ele exerceu como profissional foram muitas. Alfaiate na juventude; carteiro concursado pelos correios; entendia de enfermagem e aplicava injeções nas pessoas; também tinha experiência veterinária… viajei muitas vezes com ele para aplicar vacina no gado em muitas fazendas do interior; gerente de posto de gasolina; comerciante (vendeu ovos por um bom tempo); Foi taxista também por um bom período e logista, quando montou uma loja de peças de carros chamada JOTAAEFE (iniciais de seu nome, Joel Arnaud Fernandes) e finalmente comerciante, dono de um caldo de cana. Ele entendia e fazia de tudo um pouco!
Seus pratos prediletos eram arroz de leite, bode guisado, angú de milho, xerém, leite, vitamina de banana e de abacate, adorava mamão, inhame, doce de leite (apreciava fazer um delicioso), caldo de cana, cuscuz com leite, água de côco, especialmente daquele que tem casca amarela; castanha de cajú, mel, carne assada, galinha de capoeira, peixada (sabia fazer uma saborosíssima), apreciava a traíra e a curimatã, além de todos os tipos de caça, como tejuaçu, peba, preá, tatú e aves. Gostava muito também de comida junina como canjica, pamonha e milho cozido ou assado. Sempre no Natal saía com toda a família para visitar os parentes, casa por casa; em seguida nos levava para vislumbrar as decorações natalinas das casas, empresas e em especial ver o trenzinho com o famoso Papai Noel da SANBRA (Sociedade Algodoeira do Nordeste Brasileiro). Na passagem de ano novo, era uma questão de honra, meia noite, todos tinham que participar da ceia, mesmo que fosse servido apenas um lanche com queijo, doce de banana ou goiaba, bolacha cream cracker e refrigerante.
Apreciava descascar abacaxi, levava um tempão tirando cada gomo e ao concluir ficava todo amarelinho… e sempre dizia que não sabíamos fazer bem! Adorava frutas como abacaxi, mamão, uva, melão, abacate, banana, côco, jaca, laranja lima e goiaba.
Um de seus hobes preferidos era criar passarinho, entre eles canário de briga, galo de campina, curió, papa-capim, golado, sabiá, graúna, pinta-silvo, maria fita, xexéu de bananeira, sanhaço azul, azulão e o preferido concriz. Criou muitos animais em casa, entre eles: cachorro, vaca, tejuaçu, coelho, galinha, paturi, pato, bode, jabuti, sagui e abelha. Cresci vendo-o criar cada um destes animais e trabalhei muito ajudando-o a fornecer água e alimento para cada um deles e limpando o excremento das gaiolas. Desenvolvi amor pelos animais, observando como ele cuidava de cada um deles. Numa época de sua vida, teve criação em alta escala de coelhos e em outro período teve muitos curtiços de abelha uruçu. Tínhamos sempre uma vida bem movimentada e nunca rotineira… amava viajar com a família e fizemos alguns bons passeios… Gostava também de consertar coisas e trabalhar com terra, hortaliças e plantas… sempre plantava uma árvore no jardim quando podia e plantas frútíferas nos quintais das casas onde morávamos e as principais plantas eram o abacateiro, goiabeira, coqueiro e uva. Ah! e é claro, sempre cultivava plantas medicinais como erva-doce, erva-sidreira, hortelã da folha fina e folha grossa e também capim santo. Quando se irritava fazendo uma determinada tarefa que não estava dando certo, como por exemplo ao sofrer uma martelada no dedo, seu maior palavrão usado era “merda”.
Jamais me esquecerei da forma como ele cuidava dos seus carros… Ele preferia pessoalmente lavá-los e quando o fazia retirava os bancos, aspirava a poeira e o lixo, passava óleo em baixo do veículo, aplicava cera e dava polimento… era um dia todo de trabalho e muitas vezes o ajudei nessa difícil tarefa… ficava impecável! ai daquele que entrasse no carro e “batesse a porta com força”, na certa levava uma bronca… ele descia do carro , abria a porta e apenas encostava a porta para fechá-la e ainda dizia: “Fecha-se a porta de um carro como se fecha porta de uma geladeira”. Quanta saudade! Possuiu muitos carros, tais como: Gordini, Dofini, Ford 46, Variante, Aero Willis, Opala, Kombi, Corcel, Baratinha, Kombi e Maverick. Obedecia a todas as leis de trânsito… era incapaz de passar num sinal de trânsito fechado mesmo que fosse meia noite… Infelizmente, em fevereiro de 1981, foi vítima de um acidente na cidade de Campina Grande, no bairro do catolé, em frente ao shopping Luíza Mota, quando um carro em alta velocidade acertou-o no meio, arremessando-o de dentro de seu opala caravan contra o meio fio, que o fez falecer poucas horas depois no hospital.
Os passeios que fizemos juntos com a família nos sítios ou romarias foram inesquecíveis; tenho boas recordações da forma como tratava minha mãe e sempre a chamava de “filha”; foi um excelente pai e marido exemplar. Seus irmãos o tinham como um pai e seus amigos o amavam… Deixou para todos nós um grande legado de honestidade e caráter. Apesar de ter convivido com ele por apenas 20 anos, foi uma relação intensa. Quanta saudade!